teste
No fim de tarde o arvoredo escurece revoltando-se num amontoado de sacos de carvão abandonados pela floresta. Uma realidade bruta que nada diz excepto que é, e que a nada se parece, nem sequer a esses inexistentes sacos de carvão com que, inaptamente, decido compará-la. A minha desculpa: os gigantescos sacos de carvão são tão improváveis como este arvoredo é ininteligível. A sua ininteligibilidade – uma palavra como um comboio prestes a descarrilar-se ou a perder uma carruagem - vem do seu excesso de realidade. É uma realidade irredutível a outras realidades. O arvoredo é irredutível: é ele mesmo. Não se parece com outras coisas nem a outros arvoredos; nem se parece com ele mesmo: cada instante é outro. Exagero talvez: depois de tudo sempre é o mesmo arvoredo, e todas as suas incessantes mudanças não o transformam em pedra ou em comboio; além do mais não é único: o mundo está repleto de arvoredos como este. Este arvoredo parece-se com os outros porque de outro modo não se chamaria arvoredo, teria um nome próprio; ao mesmo tempo a sua realidade é única e mereceria ter um nome próprio de verdade. Todos merecem (merecemos) um nome próprio e nada o tem. Nada o terá e nada o teve. Esta é a nossa verdadeira condenação, a nossa e a do mundo. E nisto consiste o que os cristãos chamam o estado de “natureza caída”. O paraíso é regido por uma gramática ontológica: as coisas e os seres são os seus nomes e cada nome é próprio. O arvoredo não é o único que possui um nome comum (é natureza caída), mas é o único que nenhum nome é verdadeiramente seu (é natureza inocente). Esta contradição desafia o cristianismo e estilhaça a sua lógica.
O arvoredo sem nome, que vejo da minha janela, no declinar da tarde; borrão contra o céu impávido, mancha que avança pouco a pouco sobre esta página e a cobre de letras que simultaneamente o descrevem e ocultam.
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